Uma História de Paris a partir de seus monumentos

Dia desses, caminhava sem pressa pelas ruas de Paris quando me vi diante da belíssima estátua de Henrique IV. Naquele dia, fazíamos, eu e um pequeno grupo de turistas, a Paris da Revolução Francesa. Passamos pela Bastilha, pelo Marais, por Hôtel de Ville e por Notre-Dame. Margeávamos o Sena embalados por uma conversa animada quando alcançamos a Pont Neuf e seu famoso monumento histórico. De imediato, lembrei-me de Júlio Cortázar, o ilustre escritor argentino, e de suas palavras a respeito desse recanto tão especial da cidade:

“Ao lado da estátua de Henrique IV, há ao fundo uma luz, e à meia-noite, quando não há ninguém, este canto, solitário, é para mim uma tela de Paul Delvaux. Há este sentimento de mistério dos quadros de Delvaux, esta iminência de algo que pode aparecer, se manifestar, numa situação que nada tem a ver com as categorias lógicas dos acontecimentos ordinários”.

Construída por ordem de Maria de Médici, sua segunda esposa, a estátua original de Henrique IV foi derrubada durante a Revolução Francesa: em seu lugar, os revolucionários pretendiam construir um monumento colossal, em homenagem ao Povo francês. Cientes de que as disputas políticas também se fazem por meio dos símbolos, e de que a cidade não só produz mas é, também, narrativa, os novos detentores do poder político pretendiam substituir os emblemas de exaltação aos reis, ao clero e à aristocracia pela exaltação ao povo, grande protagonista da Revolução.


A estátua de Henrique IV.

Assim como a estátua de Henrique IV, a de Luís XIII, seu filho, também foi derrubada pelos revolucionários. Localizada ao centro da Place Royale, hoje Place des Vosges, ela foi reconstruída alguns anos após a derrubada de Napoleão Bonaparte, quando os Bourbon reassumiram o poder. Restaurada a monarquia, era hora de recolocar em seus lugares as pomposas esculturas que atestam o passado glorioso dos reis, e reafirmam o seu poder no presente. Assim, não são derrotados apenas os ideais revolucionários, mas também os seus projetos: como o de substituir a exaltação de grandes homens, a homenagem individual, pela exaltação do coletivo, o povo, na mesma medida em que pretendia-se substituir a noção de privilegio individual pela de direito coletivo. Momentaneamente, a Revolução e os seus defensores perdiam o jogo.


Luis XIII e a Place de Vosges

Hoje em dia, felizmente, o tempo das disputas e do apagamento das memorias do passado chegou ao fim: a cidade de Paris é um mosaico riquíssimo de ruas históricas, placas comemorativas, museus e, claro, de estátuas: há as que ainda nos lembram desse passado monárquico, como as de Henrique IV e de Luís XIII, das quais já falamos, mas também como a de Luís XIV, o rei sol, que ornamenta a entrada do Louvre ao lado da celebre pirâmide de vidro.

E também há as que homenageiam o que veio depois. Como as estátuas de Diderot e de Danton, o célebre revolucionário jacobino, adorado pelo povo, que estão localizadas em Boulevard Saint-German. Ou como a de Marechal Ney, o grande combatente, testemunha dos tempos gloriosos de Napoleão Bonaparte, e eternizada pelas memorias de Ernest Hemingway em “Paris é uma festa”.

“Então, quando, ao aproximar-me da Closerie des Lilas vi a luz incidindo no meu velho amigo- a estátua do Marechal Ney com a sua espada desembainhada- vi as sombras das árvores escurecendo o bronze, e ele ali sozinho, sem ninguém por detrás; evoquei o fiasco de Waterloo e pensei que todas as gerações eram perdidas devido a qualquer coisa e que sempre o tinham sido.”


A estátua de Marechal Ney, em frente ao Closerie des Lilas

Ou, ainda, as estatuas em homenagem a alguns dos grandes estadistas do século XX, como a de Georges Clemenceau, dirigente francês ao tempo da Primeira Guerra Mundial, localizada na nobilíssima Avenida Champs Élysées. E como a de Charles de Gaulle, que lhe faz companhia do outro lado da avenida: herói da Segunda Guerra Mundial, líder da resistência francesa ao nazismo e fundador da V Republica, de Gaulle foi presidente da França por duas vezes, e é um dos políticos mais importantes da história recente do pais.

Gostaria de terminar o nosso passeio pela história sugerindo uma última reflexão: da mesma forma que a cidade produz narrativa a partir da presença e da conservação de seus monumentos, ela também a produz a partir das suas ausências: são quase inexistentes as estatuas que celebram, homenageiam e valorizam o papel das mulheres ao longo da história, e isso não tem nada de acidental. Ao vazio de símbolos de exaltação ao feminino corresponde uma narrativa histórica, majoritariamente, masculina: guerreiros, políticos, pensadores, monarcas são os personagens principais de uma história à qual às mulheres é reservado o lugar de espectadoras, ou de coadjuvantes. Seus feitos não nos foram contados. Suas trajetórias, invisibilizadas.

E é por acreditar na importância de contar essas histórias que eu criei um novo percurso, sobre algumas das grandes mulheres francesas ao longo da História. Nele, a história é contada no feminino, e a importância de mulheres como Berthe Morisot, Marie Curie, Coco Chanel, Marguerite Duras, Simone de Beauvoir, entre outras, é reconhecida. Não posso deixar de agradecer às inúmeras mulheres que inspiraram, deram ideias e participaram comigo dos passeios históricos em 2019.Espero revê-las, assim como espero dividir todas essas histórias com outras mulheres e outros homens imbuídos espirito curioso e de amor pela história. Nosso encontro já tem lugar marcado: Paris!

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