Paris da Segunda Guerra Mundial: a volta do Paris de Histórias às ruas

Nos últimos dias, o presidente Macron anunciou o que esperávamos há tanto tempo: a abertura do país aos brasileiros vacinados. Essa permissão, que abre a perspectiva do retorno do turismo a Paris, coincidiu com a volta, literalmente, do Paris de Historias às ruas: na primeira semana de julho, recebi a mensagem de uma família brasileira interessada na marcação de um percurso histórico: era um casal, com dois filhos, vindo do Rio de Janeiro e passando as férias em Portugal.

Segundo me contou a Paula, a ideia de aprender história pelas ruas de Paris veio das crianças: o filho mais velho, de oito anos, é um apaixonado pela Segunda Guerra Mundial: assiste aos documentários, compra souvenirs, procura livros sobre o assunto. Não tivemos dúvida: o melhor percurso para eles seria o da Paris sob ocupação nazista.

Marcamos encontro às 9h da manhã de um sábado, em frente à estatua de Charles de Gaulle. Ali, às portas da Avenida Champs Elyssées, começava, pra eles e pra mim, um momento único: especial. Pra eles, a experiência de aprender história percorrendo os seus mais significativos lugares de memória. Pra mim, a possibilidade de, novamente, refletir sobre a história fazendo das ruas a minha sala de aula.



Comecei contando pra eles quem foi Charles de Gaulle: mais do que o nome de um aeroporto, de escolas e de ruas, de Gaulle foi um dos personagens mais marcantes da história francesa no século XX. E toda essa importância que o país lhe atribui tem a ver com a Segunda Guerra. Foi ele o principal nome da chamada resistência francesa. Ao tomar conhecimento da capitulação de seu país, de Gaulle reagiu. Era preciso "fazer alguma coisa". A derrota humilhante frente aos alemães era algo de inaceitável. Disposto a agir, custe o que custasse, o general, à época desconhecido, desertou do exército francês e partiu rumo à Inglaterra, onde pretendia conseguir o apoio do único país ainda em guerra contra os alemães. Com o aval de Churchill, de Gaulle faria o famoso "chamado do 18 de junho": um apelo à resistência dos franceses. Assim surgiriam as Forças Francesas Livres, que teriam um papel fundamental nas lutas que levariam à libertação do país, anos mais tarde.

Enquanto narrava essa história, percebia as crianças absolutamente atentas: elas não queriam perder nenhum detalhe! Visitamos a estatua de Churchill e partimos na direção de outros pontos da cidade mergulhados nesse passado: a Assembleia Nacional, a Place de la Concorde, a Rue de Rivoli e seu monumento aos mortos durante a semana de 18 a 25 de agosto de 1944: naqueles dias, a resistência saiu às ruas e garantiu a libertação de Paris da ocupação nazista. Um feito pelo qual muitos franceses pagaram com a própria vida.



Passamos também em frente ao Hotel convertido em sede principal do governo nazista em Paris. Visitamos a Ópera e paramos alguns metros à frente para ler o que dizia uma placa: ali ocorrera uma reunião clandestina do Conselho Nacional de Resistência, após a captura e o assassinato do grande Jean Moulin, um dos principais nomes da resistência francesa. Moulin, ou Max, seu nome de guerra, não viveu para ver a libertação de seu país, um dos muitos capítulos tristes dessa história.



O final do nosso percurso foi em Hotel de Ville: esse prédio de um valor simbólico indescritível: desde os tempos da Revolução Francesa, é ali que se reúne o povo quando o desejo de mudança lhes toma de assalto: foi assim na Revolução de 1848 e na Comuna de Paris. Foi assim na Segunda Guerra Mundial. A retomada de Paris deveria começar pela reconquista daquele prédio, que pertence ao povo: um monumento à democracia francesa. Foram dias e dias de trocas de tiros, até que o prédio passou à mão dos resistentes. De suas sacadas, de Gaulle saudaria o povo: "Paris saqueada, Paris devastada, mas Paris liberada."



Nosso percurso durou cerca de duas horas, mas as crianças pareciam inteiras. E os adultos também. Sorriso no rosto para a fotografia final. Nunca mais, eles me disseram, veremos a cidade com os mesmos olhos. A História tem mesmo esse poder: ela nos permite ressignificar os lugares, as experiências do vivido, a partir do que viveram os que vieram antes de nos. A possibilidade de contar de novo essas histórias ao vivo me encheu de alegria. Espero poder encontra-los, todos, na cidade das luzes, que é também a cidade da resistência popular. Até lá!

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